terça-feira, 21 de maio de 2013

Crises, guerras e revoluções internas


- Acho que já passou o período de crises.
- Crises, guerras e revoluções?
- É, acho que é bem isso. Ao menos internamente...

Às vezes a gente acha que tomar uma decisão é algo difícil. Na verdade, é bem fácil. É só decidir. A parte difícil é concretizar a decisão, e seguir concretizando sem perder de vista os objetivos que levaram a decisão. Mas se arrepender, em alguns momentos, é inevitável. Faz parte do processo de rupturas, dessas da vida mesmo. Acho que por isso que a definição de “crises, guerras e revoluções internas” vem bem a calhar.

Se eu soubesse que seria tão difícil, teria feito mesmo assim, já que não foi o nível de desafio que me fez decidir. Bem, talvez sim. Mas se dar novos desafios é um importante passo no processo de superação e auto-superação. Mas se eu soubesse, teria me preparado melhor, digerido a informação. Mas não, ansiosa que sou, engoli de uma vez achando que não haveria consequências. Pois bem, uma inevitável indigestão de saudade e dor de choro engolido veio atrapalhar o bom andar da carruagem.

Mas hoje, na atual situação e conjuntura que vivemos (pessoal, social, política, mundialmente!), as crises, guerras e revoluções – as internas e as reais – são inevitáveis, e totalmente necessárias para passarmos a uma etapa superior do desenvolvimento da história. E da nossa compreensão da história, além da nossa própria história, aquela pessoal mesmo. Por isso que tomar uma decisão “revolucionária” não é difícil. O difícil é superar o período de crises e guerras internas anteriores à enfim revolução! E quem tanto reivindica a revolução deve estar disposto a passar pelas crises e guerras.

Uma boa conversa hoje me fez perceber que não só quem toma a decisão deve estar disposto a arcar com as transformações. Quem não decide, mas é afetado pela decisão, também tem seu pouco de responsabilidade, e também deve estar disposto às transformações que forem necessárias, para que as relações caminhem da melhor maneira possível. Que talvez não seja a melhor e mais desejada, mas talvez seja a única possível.  

Enfim, acho que esse foi o post menos político e mais pessoal que já escrevi, e talvez ele esteja meio enigmático demais. Mas achei que tamanha transformação, tamanho turbilhão de sentimentos, sensações, merecia enfim algumas palavras. E é o primeiro post do ano, e esse ano, especialmente, necessitava de algo mais pessoal.
               
À pessoa com quem compartilhei o diálogo inicial, que rendeu a necessidade de escrever algumas linhas, o mais especial dos abraços.

E só quem pôde ver o pôr do sol que vi hoje, mais enorme e laranja que eu já pude ver, pode imaginar a atual sensação – pós crises, guerras e revoluções internas – de que eu estou exatamente onde eu queria estar.

domingo, 25 de novembro de 2012

Vestibular: aos que entrarão, e mais ainda aos que não!


Meses e meses sem passar por aqui...

Mas hoje é dia de fuvest! A primeira fase da Unicamp já foi. É a época dos vestibulares. Mando muitas boas vibrações aos que estão prestando fuvest hoje!!

E que após essa prova, todos - os que entrarão e os que não serão meticulosamente selecionados pelo filtro social - saiam e travem ao nosso lado a luta pelo fim do vestibular, pela universalização do ensino, e pela estatização de todo ensino privado, sem pagamento de indenização aos tubarões do ensino, donos dos grandes monopólios que vendem educação!

Porque cotas raciais, cotas sociais, não são suficientes! Sim, eu aceito essas migalhas do governo! Sim, me dê cotas, eu as quero! Mas não é só por elas que vou lutar. Que a luta pelas cotas raciais venha ligada à luta pelo fim do vestibular, porque não quero apenas alguns números de negros por cento dentro da universidade, eu quero absolutamente todos os negros que queiram estudar, dentro da universidade! Eu quero toda juventude pobre, toda juventude negra, toda juventude trabalhadora, das periferias, morros, favelas, todos que queiram, eu quero dentro da universidade, ocupando as salas de aula para estudar, e não mais para limpar! Não quero mais a população negra entrando apenas pelas portas dos fundos das universidades, para limpar banheiros, para servir bandejas, para flutuar no ar como se fosse um pássaro, se acabar no chão como um pacote flácido, agonizar no meio do passeio público e morrer na contramão atrapalhando o tráfego, como aconteceu com José Ferreira da Silva.

Porque quando eu falo do fim do vestibular, é dessa juventude que estou falando, da juventude que está do lado de fora, do outro lado do muro – e no caso da USP, é literalmente “do outro lado do muro”, ali, na comunidade São Remo. Essa juventude tem classe, tem raça, tem cor! Essa juventude, que quando entra na Universidade é pra trabalhar nos postos mais precários de trabalho, nos cargos terceirizados, ao sair para voltar pra casa corre o risco todos os dias de ser assassinada pela polícia! Como Cícera foi, trabalhadora terceirizada da USP, que foi assassinada pela polícia dentro de sua própria casa, na comunidade São Remo. E como estamos assistindo acontecer todos os dias pelas periferias e favelas de São Paulo, na chamada “guerra não declarada entre a PM e o PCC”, que na realidade é a brutal expressão do genocídio da população pobre e negra! O crime? Ser negro. Ser pobre.

Então, que essa juventude que está hoje nessa prova, que cada um deles se junto a nós nessa outra luta – não desvinculada da luta pelo fim do vestibular – pela PM fora das Universidades, escola, morros, favelas e periferias! Porque justamente a juventude que mais fica de fora do vestibular – e mais ainda aquela que nem sequer presta o vestibular, porque não sabe, não conhece, não tem R$120 para a inscrição, ou até mesmo sabe que não tem condições de passar nessa prova – é a juventude que mais sabe qual é o papel da polícia. Ontem assistimos a polícia espancar e levar preso um jovem, porque era negro, porque era pobre. Mas também assistimos uma mulher da comunidade, lá da São Remo, enfiar o dedo na cara do PM que disse que eles não eram gente de bem, que eram todos bandidos, e dizer “Você não é gente de bem. Você não é trabalhador, você sobe aqui pra matar trabalhador.”.  Policial não é trabalhador! Polícia é o braço armado do Estado, os cães de guarda do patrão!

Por fim, que cada jovem que está fazendo essa prova hoje, junte-se a nós na luta contra essa Universidade que temos hoje, por outro projeto de Universidade. Por uma Universidade que coloque todo seu conhecimento produzido à serviço da ampla maioria da população, e não mais de um ínfimo setor de empresários, latifundiários e governo. Por outra estrutura de poder na Universidade, que não seja mais a arcaica e antidemocrática que temos, onde um pequeno colegiado de poucos privilegiados doutores tomam todas as decisões que dizem respeito à comunidade acadêmica. Queremos a democracia, aquela que já foi defendida na Revolução Francesa de 1789, onde cada cabeça vale um voto. É a mesma democracia que temos do lado de fora da Universidade: passamos esse ano por eleições municipais e, com todas as contradições existentes nesse processo, ainda assim cada pessoa tem direito a um voto!

Que hoje, cada jovem que está prestando fuvest saia dessa prova com a raiva que lhe é legítima, e que com essa raiva junte-se à nós nessas lutas! Por uma transformação radical da Universidade! Pela PM fora das Universidades, escolas, periferias e favelas!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Companheira Camila: PRESENTE!


Já a um tempo não passo por aqui, e me angustia muito pensar o que me motiva a escrever novamente...

A que ponto a miséria do capitalismo pode levar alguém? Alguém cuja consciência dessa miséria era bastante conhecida. Alguém cuja tamanha sensibilidade faz com que a dor dessa miséria, a dor da opressão seja tão desesperadora que viver em meio a isso se torna insuportável. Literalmente insuportável, em seu sentido mais correto. Que realmente não suporta mais, e tomba. Uma lutadora que tomba em batalha, pois em tempos como esse em que vivemos, só de estar vivo com a clareza e sensibilidade de que é necessário lutar para mudar isso tudo, essa é a primeira batalha. Manter-se vivo. 

E qual o papel dos revolucionários frente a uma situação como essa?

 O papel de lutadores, claro! Daqueles que se indignarão frente a essa perda, e terão muito mais certeza da necessidade de acabar com a doença que matou a companheira, a doença do capitalismo. A mesma doença que fez um jovem atear fogo em seu próprio corpo na Tunísia, no início de 2011, dando o pontapé inicial da Primavera Árabe. A mesa doença que matou o aposentado grego há algumas semanas. Lutar pelo fim desse modo de produção, que todos os dias matam pessoas, trabalhadores, lutadores da batalha diária que é manter-se vivo dentro desse sistema. Lutar pelo fim desse sistema de opressão e exploração, que tanta dor causa à tantas e tantas pessoas, conscientes ou não da causa dessa dor. Oprimidos e explorados. Lutar por um mundo onde não mais haja exploração do capital, onde não mais haja monopólios, onde o Imperialismo seja apenas uma passagem da história. 


Mas antes de tudo isso, o grande papel dos revolucionários frente a esta situação, o verdadeiro papel dos revolucionários, que nos fará conseguir levar adiante o papel de lutadores, é o papel de seres humanos! Seres com qualidades humanas! Porque é exatamente isso que faz dos lutadores, pessoas revolucionárias. Toda a miséria do capitalismo levou a que a grande maioria das pessoas hoje perdesse as qualidades humanas, são “milhões de vasos sem nenhuma flor”. A dor da perda de uma companheira, de uma lutadora, de uma amiga, transformada em raiva do sistema que levou a essa trágica decisão, transformada no ódio que nos move! No ódio, que é o que nos faz seguir em frente, seguir na luta. Porque a luta não pode ser somente contra o modo de produção, contra o imperialismo, contra o trabalho assalariado. A luta é pela sociedade comunista! A luta é por uma sociedade humana, onde ninguém mais sinta a necessidade de se questionar o porquê de estar vivos! Que as pessoas estejam vivas e vivendo, e não apenas sobrevivendo! E isso começa agora, isso começa com nós. Ser sensível com a sensibilidade alheia. Assim como tiramos lições de nossas derrotas, temos também que aprender com nossas perdas. E que essa perda sirva, de uma maneira triste, mas revolucionária, para que valorizemos os que estão ao nosso lado nessa grande batalha, aqueles que estão ombro a ombro conosco, dedicando suas vidas à essa luta, justamente por essa luta ser o que nos mantém vivos. Pois no limite, na luta pela construção da sociedade comunista, são esses que estarão ao nosso lado até o fim, são os camaradas, os companheiros, os lutadores. Que essa perda nos ensine a sermos mais sensíveis, que nos ensine a desenvolver nossas relações, aprofundar nossas amizades. Que sejamos camaradas por completo, partilhando nossas lutas, nossas alegrias, mas principalmente nossas dores e angústias. Que confiemos plenamente naqueles que caminham conosco nessa jornada, que são aqueles a quem confiaremos a vida nos momentos de luta acirrada, e a quem protegeremos com a vida. 

Porque tão revolucionário quanto um dia inteiro de intensa militância e estudos, é a pergunta “e aí, como você está?” no final do dia. 

À todos que tombaram em meio a batalha de viver: PRESENTE! Agora, e sempre!
Avante companheiros!

domingo, 27 de novembro de 2011

Segurança: como, de quem, para quem?



Estou há dias para escrever sobre isso.

Segurança! Nos últimos dias temos visto muito essa palavra ecoar pelos meios universitários, e o surgimento de um debate acerca deste tema. Que a luta travada hoje na USP é uma luta a respeito da segurança no campus, da segurança dos estudantes.

Antes de entrar na questão “segurança”, o que tem que estar colocado hoje na USP é que existem 73 presos políticos. O que está colocado hoje na USP é uma repressão brutal ao movimento estudantil e de trabalhadores. O que está colocado hoje na USP é, desde a ditadura militar, um dos maiores ataques à liberdade de manifestação. Então, antes de pensarmos “segurança” temos que pensar em como vamos defender esses 73 presos políticos e exigir a retirada dos inquéritos, enxergando a importância dessa luta por entender que 73 punições à lutadores representaria uma derrota e um retrocesso inimaginável à TODOS aqueles que se colocam em luta. E isso não é exagero! Se deixamos passar que uma desocupação aconteça da maneira como aconteceu na reitoria da USP, estaremos entregando nas mãos da polícia todas as ocupações de terra de movimentos sem-terra e as ocupações urbanas de movimentos sem-teto. Estaremos permitindo que nossas greves e manifestações sejam também brutalmente reprimidas. Estaremos nos atando, abrindo mão de nosso próprio direito de lutar e nos manifestar.

Agora, com relação à segurança. Em primeiríssimo lugar, acho que se perguntar “como e que tipo de segurança queremos para os estudantes da USP” é um equívoco, e traduz um pensamento totalmente elitista! Pensar que não queremos a PM dentro da USP porque isso fere a autonomia universitária, e porque a universidade é um local de produção de conhecimento e isso não é possível com um fuzil apontado para a testa ESTÁ CORRETO! Mas não é o suficiente. Eu quero a PM fora da USP também por esses motivos citados, mas porque a sua função social é a de “manter a ordem”, e a ordem é a da burguesia! “Manter a ordem” significa “defender a propriedade privada”, “evitar e reprimir manifestações que questionem a ordem”, “limpar os pretos e pobres das belas ruas dos principais pontos turísticos”. Eu quero a PM fora da USP porque ela é, por essência, assassina de jovens e trabalhadores negros. Eu quero a PM fora da USP, porque quero a PM fora das favelas, morros e periferias, porque é impossível VIVER com um fuzil apontado para a testa! Porque a PM brasileira é a mais assassina do mundo, é a que mais tortura em períodos de dita “democracia”. Porque a PM que prendeu 73 estudantes e trabalhadores na USP é a mesma que mata, tortura e estupra nas favelas e periferias. É a mesma polícia que, com um contingente de 4 mil policiais, acaba de militarizar a Rocinha e lucra mais com o tráfico do que os próprios “clássicos” traficantes. E se ela prende 73 estudantes e trabalhadores, em sua maioria brancos, na maior universidade da América Latina e uma das mais elitistas, em meio a um processo de alcance midiático nacional, acho que conseguimos imaginar o que essa PM faz com jovens e trabalhadores negros nas periferias, bem longe do alcance das câmeras! 

Mas mais uma vez, sobre a segurança na USP, já que foi isso que me propus a escrever. Mas convenhamos que não faz sentido nenhum discutir a segurança na USP por si só, sem passar por todos esses pontos que tentei passar.
É óbvio que eu quero a USP segura. Para toda a população que frequenta esse espaço PÚBLICO! E para isso, esse espaço tem que ser efetivamente público, para que toda a população frequente! E isso é o que vai trazer segurança para dentro da USP! Iluminação SIM, mas circulação de gente, universidade a aberta à população, com atividades abertas! Mais cursos noturnos, bandejão nos fins de semana, moradia dentro do campus (esses últimos fazem parte da realidade da USP, mas não é o caso de muitas outras universidades, como as UNESP’s – muitas nem bandejão e moradia tem – e da UNICAMP). Nos dias de festa, auto-organização dos estudantes para evitar assédios, violências, estupros, organizando transporte e caravanas para ir embora (como aconteceu em algumas festas na Unicamp, e ajuda bastante!).
No limite, a segurança vai vir da população frequentando a universidade. Da população estudando na universidade. E nesse sentido, o fim do vestibular é a melhor resposta para o problema de “segurança” da USP – e não só da USP. Quando toda população tiver a oportunidade de estar dentro das universidades públicas estudando, aí sim estaremos falando de locais seguros, frequentados por pessoas! E não existe resposta intermediária, que fique claro! Não me venha com “segurança treinada, qualificada, não terceirizada”, o caralho a quatro! ISSO JÁ EXISTE! Enquanto essa super segurança estiver submetida à estrutura de poder antidemocrática existente hoje, essa segurança estará lá para cumprir o papel de polícia! E eu digo isso porque ouvi de um PM essa semana, que entrou na UNICAMP chamado pelo chefe da segurança do campus – que, ora vejam só, é concursado  -  e quando chegou e se deparou com estudantes questionando a atitude do segurança e a PM no campus, o policial falou “a segurança do campus tem papel de polícia dentro do campus”. Então não me venha com “soluções” que já são vigentes e que, no limite, tem como proposta transformar a universidade pública em um condomínio fechado e seguro para os privilegiados que passaram no vestibular.

Agora, mais um ponto. Se vamos discutir a segurança na USP, quero discutir qual a segurança para que os trabalhadores terceirizados não se machuquem mais todos os dias, e nem morram, por não ter a garantia de equipamentos certos para fazer o serviço. Assim como José Ferreira da Silva, trabalhador terceirizado, não teve e morreu em serviço dentro da USP este ano. Quero garantir a segurança dos terceirizados do bandejão da Unicamp, que todos os dias se cortam com as bandejas, e se queimam com a água fervente que vaza de um equipamento precário. Quero que todos esses terceirizados tenham a segurança de que seu salário vai chegar no próximo mês, que seu emprego ainda será seu no fim do ano, e que seus filhos estejam alimentados e frequentando a escola no próximo ano. E essa segurança só será garantida com a efetivação, sem concurso público, desses trabalhadores, com o fim da terceirização e precarização da vida, do trabalho!

Para finalizar, deixo um vídeo sobre um festival que ocorreu em Zanon, na Argentina. Zanon é um fábrica que está completando uma década sob controle operário. É uma fábrica sem patrão que construiu um festival cultural sem polícia! Para aprendermos como é possível, como a segurança do povo pode e deve ser garantida pelo povo!



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Tusca, Interunesp, Economíadas, Engenharíadas, Intermed, Inter/íadas qualquer coisa... Até quando?


E lá vem mais um Tusca (Torneio Universitário de São Carlos). Começou ontem. Mal começou e no Corso, sua festa de abertura, já morreu um. Se envolveu em uma briga, foi atropelado. Ano passado morreu um também. Ficou bêbado, caiu no córrego.

Qual será o saldo até o fim, daqui dois dias? Quantas mortes? Quantos estupros? Quantos "Rodeios das Gordas"? Mais um torneio universitário, onde a juventude, ao invés de se divertir, confraternizar, conhecer gente, beber, transar com segurança, expressar sua sexualidade... É oprimida, violentada, reprimida sexualmente ao ter seus desejos e prazeres tolhidos, por não ter condições objetivas e subjetivas de se expressar.

Onde jovens morrem atropelados [Tusca 2011].
Onde jovens morrem porque caem no córrego [Tusca 2010].
Onde jovens quase morrem por "boa noite cinderela" e coma alcoolico [Interunesp 2008 - rendeu 4 dias de UTI].
Onde jovens quase morrem por tomar uma tijolada no rosto [Intermed 2007 - rendeu 3h de cirurgia plástica para reconstrução dos ossos].
Onde jovens são oprimidas, humilhadas, violentadas [Interunesp 2010 - e outros].
Onde jovens tantas outras situações! E eu não estou falando de achismos, estou falando de fatos!

Nesses espaços a visão da "mulher-objeto" é potencializada. Os hinos, as músicas, as "brincadeiras", tudo potencializando o machismo, o racismo, a homofobia mais incrustada na sociedade.

A juventude tem que construir espaços de confraternização conscientes, onde os jovens entrem ansiosos e saiam vivos, felizes, minimamente satisfeitos! Onde haja música, álcool, sexo e nenhum tipo de opressão, nem mortes!! Onde haja cultura, onde haja arte, onde haja vida! Onde haja o forte combate ao machismo, ao racismo, à homofobia, não só nesses espaços, mas em toda sociedade. Onde se possa expressar livremente sua sexualidade, sem ser oprimido, sem ser censurado, sem conservadorismos e moralismo burguês.

Onde se possa dançar uma música, e também discutir a Primavera Árabe.

Onde se possa assistir a uma esquete teatral, e também reivindicar a abertura dos arquivos da ditadura.

Onde se possa ver apresentações circenses, e também analisar as mobilizações chilenas.

Onde se possa ficar xapado, e também debater o Lulismo.

Onde se possa fazer sexo, e também conversar sobre sexualidade.


Pois então reivindico veementemente espaços como o I "Festival Interunesp contra as opressões", realizado no fim do ano passado, na Unesp de Marília. Uma resposta política ao grotesco "Rodeio das Gordas". Um espaço para a expressão da arte, do lazer, da confraternização. Um espaço para discussão política. Um espaço livre de opressões. Um espaço onde a juventude entrou viva e consciente, e saiu viva, consciente e feliz!

Avante juventude! Pelo seu direito ao lazer, pelo seu direito de ser jovem!

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Crônica: A mais violenta das violências

O que poderia ter feito? Chegou por trás. Pega. Toca. Enoja. Violenta sem que haja tempo para pensar. O que fazer na hora? Angústia e asco. Lá se foi seu orgulho. Seu corpo não lhe pertence. E agora também não o quer mais. Não pode. Não dá para se livrar dessa carcaça nojenta e suja. E agora, o que fazer?


- Liga pra polícia!


Não! A polícia não pode lhe ajudar. A polícia nunca pode ajudar. A polícia só ajuda a quem serve, e com certeza não é à ela. Ela não é governo. Ela não é estado. Ela não é patrão. Ela não é reitor. É mulher. Não é ninguém. Enquanto ela via todo seu "eu" escorrer pela sarjeta, a polícia estava fazendo com outra o que faziam com ela. Estava dando uma geral no jovem negro que voltava pra casa. Estava reprimindo o trabalhador de alguma fábrica que lutava pelos seus direitos, que lhe foram arrancados, direito de ter uma vida digna. Estava impedindo uma festa em república. Desocupando a universidade. Mantendo a ordem. Ordem burguesa. Cumprindo exatamente o papel que lhe foi dado!


- Você é uma idiota mesmo. Por que estava lá? Por que aquela hora? Por que com aquela roupa?


E era exatamente o que todos iriam dizer. Mas ela sabia no fundo que em nada a culpa era dela. E o seu direito de andar na rua? E a sua liberdade? E a sua sexualidade? Não. Ela não foi vítima de apenas mais um tarado desequilibrado. Sua violência foi brutal, a mais asquerosa que se pode sofrer, mas ela sabe que esse é apenas um tipo de violência contra a mulher. E todas outras que as mulheres sofrem caladas diariamente? Seu maior agressor era o Estado, o sistema capitalista. Pois quanto mais pobre a mulher é, já não basta a miséria da vida, maior a violência. Porque ela estava la, a pé, naquele horário. Podia ter ido mais cedo. Podia ter ligado para uns amigos. Podia chamar um táxi. Podia pagar por um táxi. Preferia não, mas podia, tinha essa opção. Mas e aquelas mulheres que não tem essas opções? Elas têm que passar pela rua abandonada, esperar o ônibus no ponto escuro, nos horários mais desertos do dia. Porque tem que ir trabalhar, para poder pagar as contas, criar os filhos, alimentar o marido. Seu trabalho por si só já é uma violência. Dez horas por dia, esfregar chão, limpar privada, passar por humilhações, abaixar a cabeça. Nenhum direito. Nenhuma estabilidade. - Não fale com ninguém! Almoce escondida! Faça seu serviço sem ser percebida! - É o que ela teve que aceitar para conseguir o emprego. Além do risco a sofrer na rua abandonada, ponto escuro, horário deserto. Pensando bem, passar por tudo isso e ainda ter que chegar em casa, lavar roupa dos filhos, engomar a do marido, por comida na mesa, preparar a marmita, esfregar mais chão, limpar mais privada - pelo menos agora é só uma, para ela, o marido, e os cinco filhos. Ela não sabia como evitar a gravidez. Ela engravidou e não podia tirar. Demorou até que alguém lhe ensinasse sobre a tal pílula de todo dia. - isso tudo também é uma violência contra ela. Inclusive a falta de informação sobre os contraceptivos. Inclusive o sexo que faz sem vontade com o marido. O sistema se apropriou dessa exploração para manter seus lucros, e violenta essa mulher a cada dia da sua vida.


- Mas e você, vai fazer o que agora?


Ela enxugou as lágrimas, parou de se olhar no espelho, seu único companheiro na última hora. Lavou o rosto. Respirou fundo. Decidiu tomar alguma atitude imediata. Foi até o CAISM* (e agradeceu por morar em Campinas e ter acesso ao CAISM) e se preparou para a bateria de exames. Para a maratona de remédios. Anticoncepção de emergência, anti hepatite B, anti HIV-AIDS, psicólogo, assistente social. 


No caminho pensou que essa violência não podia ficar assim. A sociedade não podia ficar assim. Cansou de se lamentar! O tempo passa, o mundo oprime e a gente se adapta enquanto se lamenta, e definitivamente ela não queria mais isso! Decidiu ir à luta. Recuperar seu orgulho. Exigir e arrancar seu direito ao seu corpo. O seu, e o daquela trabalhadora. Pensou que as duas juntas, estudante e trabalhadora, e todas juntas, estudantes e trabalhadoras, poderiam romper com a ordem, derrubar o poder, destruir o sistema. Juntas, poderiam se organizar e mostrar que cansaram de ser objeto, e que querem daqui pra frente ser sujeitos de suas próprias vidas, sujeitos da história. São mulheres. Querem ser mulheres. Querem lutar como as mulheres que são. Chega de submissão, é chegada a hora de subverter!


E fez disso seu objetivo de vida.


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*Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher, que possui um programa de atendimento às mulheres vítimas de violência sexual, e funciona dentro da Unicamp, 24h. (www.caism.unicamp.br)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

E como expressar a sexualidade livremente, se nem sabemos nos relacionar?

E de repente eu só quero gritar, e surtar, e chorar enlouquecidamente, e brigar com quem não fez nada. Eu quero ter todos os desvios possíveis, só essa noite. Só essa noite?
Se eu me permitir só essa noite, eu permitirei só mais uma. Só mais uma noite. E na semana que vem, só mais uma. Mês que vem só mais duas, talvez. Só mais três noites de surtos e desvios não há de fazer mal, certo? Certo? Não.

- Foco. Mantenha o foco. Concentre-se. Mas eu não consigo! Então chora, é isso que você quer mesmo. Senta e chora que é o que te resta. Ou levanta e mantém o foco. Dá um jeito, se vira! Mas será possível que você não vai conseguir nem escrever isso até o fim, sem parar zilhões de vezes para fazer... nada!? -

A questão é muito simples: ter clareza e consciência não é o suficiente! Falta muita força e luta. E eu sei que to reclamando a toa, “de barriga cheia”.

Pois vamos ao que interessa: relacionamentos e sexualidade dentro de um marco revolucionário. E aí, ta a fim de discutir? Porque eu não sei nada, mas to bem disposta a aprender.

Porque afinal, o que é um relacionamento revolucionário? O que significa expressar livremente sua sexualidade? O que é o tal do “amor livre”? Aliás, alguém aí sabe me dizer o que realmente significa amor? Porque eu vejo uma juventude de esquerda, tão disposta e apaixonada por uma luta, levantar consignas que não passam de consignas. Mas vejo também uma juventude revolucionária disposta e apaixonada enxergando todo seu conservadorismo, e muito disposta a estudar, entender, ir além da palavra de ordem, que quer romper com isso tudo. E eu quero ser parte dessa juventude também! Mas eu também sou obrigada a dizer que rompimentos não são assim tão fáceis. E retorno ao que disse antes, para romper não basta apenas clareza política e consciência dos erros. Tem que querer. Tem que estar cheio de disposição.

Porque se adaptar é algo muito fácil, muito simples. É o que toda sociedade faz. Adaptam-se ao que é correto. Relacionamento fechado, monogâmico, pra casar, sexo com uma só pessoa do sexo oposto – ou do mesmo sexo, o moralismo e adaptação também ocorre nas relações homossexuais – ter filhos, criar os filhos para que eles cresçam e tenham um relacionamento fechado, monogâmico, pra casar, fazer sexo com uma só pessoa do sexo oposto, ter filhos, criar os filhos para... enfim.

Acredito que, para além dos revolucionários dispostos a colocar esse tabu em pauta e romper com esse rotineirismo opressor, há também pessoas que se incomodam com essa regra geral. O que elas não conseguem enxergar é o porquê que essa situação não muda, e não mudará dentro do contexto que vivemos. Aí você vai dizer “porque a influência da igreja é forte demais, e não permite que se rompa com o marasmo e saia pecando por aí”. E eu te respondo: sim! Mas aí eu te digo que não é só isso. Vai além da opressão religiosa, e entra no plano político econômico. Vivemos em um sistema que se utiliza dessa opressão. O capitalismo se apropriou da família. A família é a instituição mais opressora que existe e o capitalismo cumpre muito bem o seu papel de sistema explorador ao se apropriar disso.

Mantém e legitima o machismo, e as mulheres continuam a ser “do lar”, “donas de casa” até mesmo quando são trabalhadoras, e aí cumprem duplas e triplas jornadas de trabalho ao trabalhar o dia todo fora de casa e chegar em casa e trabalhar mais ainda. E por que o capitalismo é quem legitima isso? Porque é muito mais lucrativo manter as mulheres trabalhando de graça em casa, do que manter restaurantes, lavanderias e creches comunitárias.

Mantém e legitima a propriedade privada, e as pessoas continuam presas a relacionamentos fechados e monogâmicos, para que se tenham a garantia de quem é o pai dos filhos, e assim sua herança seja passada adiante.

E aí chegamos ao ponto de que não basta só lutarmos sós para quebrar o que está dado em nós mesmos, porque não é o suficiente. Temos que quebrar esse sistema todo, para que todos possam ter a chance de realmente expressar livremente sua sexualidade, e se relacionar livremente com as pessoas. Construir relações profundas! E não, não estou dizendo que há uma ligação direta do tipo “fim do capitalismo = fim do machismo e opressão sexual”, porque não é assim que funciona. Mas, se lutarmos juntamente pelo fim do capitalismo, e pela livre expressão da nossa sexualidade, poderemos fazer dessas lutas uma só, e o fim do sistema explorador que se apropria das opressões nos abrirá um espaço para nos expressarmos.

Mas aí, depois de justificar o porquê quero discutir relacionamentos revolucionários, entro neles mais diretamente. Há um senso comum dentro da esquerda que se dispôs a discutir esse assunto de que há uma ligação mecânica do tipo “relacionamento revolucionário = relacionamento aberto”. Não. Não! Por favor, NÃO! Não há essa mecanicidade, jamais! Se assumirmos isso enquanto uma verdade, estaremos afirmando que qualquer relacionamento burguês e pequeno-burguês do tipo “ficando” ou “amizade-colorida” (em um linguajar facebookiano) é revolucionário. Que qualquer pessoa que transa com mais de uma pessoa é um revolucionário sexual. E isso está longe de ser real! 

Na real, a minha concepção (ainda sem estudos e aprofundamentos) é de que um relacionamento revolucionário é um em que as pessoas envolvidas têm a plena consciência de que elas são por si só, sem que uma tenha necessidade e dependência da outra. E o que rola é um companheirismo até o fim, e a liberdade de estar junto sem a necessidade e obrigação de estar junto. Ser companheiro é fazer parte ativa de todos os âmbitos da vida, simplesmente porque faz sentido, e faz bem. É enxergá-las como pessoas com suas particularidades, e unicidades, e fazer parte disso, ao invés de tomá-la como propriedade privada e tentar moldá-la a sua maneira. É construir e avançar juntos. E a partir do momento que se tem clareza do que é ser companheiro até o fim, que significa estar a vontade com o outro, e que isso é o que define o que é um relacionamento, se tem a clareza da possibilidade de se construir relacionamentos com mais de uma pessoa. E de se aprofundar as relações com essas pessoas. E quando se consegue construir relacionamentos profundos baseados no companheirismo, nota-se que o sexo faz parte disso e é um complemento das relações. E aí sim, com a clareza de que o sexo é a completude dos relacionamentos profundos e de camaradagem, é que se consegue ter a livre expressão da sua sexualidade. E é aí que o relacionamento aberto é revolucionário, por toda clareza e profundidade que levou a isso, e não ele por si só.
Porém hoje, no marco em que vivemos, enquanto uma juventude filha do neo-liberalismo, uma juventude fruto da restauração burguesa, conseguir estabelecer esse tipo de relação com uma pessoa só já é um avanço, porque a realidade é que não sabemos nos relacionar! Não sabemos amar!
Logo, por isso que um relacionamento aberto não é automaticamente revolucionário, e por isso que um relacionamento fechado pode ser, a princípio, revolucionário.

Mais uma vez, são apenas reflexões iniciais nada profundas de quem está começando a pensar o assunto, e muito disposta a estudar e discutir incansavelmente!

Porque estamos avançando nisso ainda. E ainda há muito que romper. Mas romperemos!